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domingo, 11 de abril de 2010

Internautas publicam na web fotos de tudo o que comem

Javier Garcia já tem quase nove mil fotos de suas refeições em seu site
Javier Garcia já tem quase nove mil fotos de suas refeições em seu site

Javier Garcia, 28, neurocientista da Universidade da Califórnia em Irvine, estava em um bar do campus recentemente, comendo um queijo-quente. Mas antes de morder o sanduíche, tirou uma foto do queijo escorrendo artisticamente entre as fatias de pão branco torrado, da mesma forma que fotografou tudo mais que comeu nos últimos cinco anos. A cada duas semanas, ele posta as fotos em seu site, ejavi.com/javiDiet, o que oferece uma visão livre e inesperadamente íntima de sua vida, e atrai fãs até em países distantes como o Equador. As quase nove mil fotos não excluem coisa alguma, nem mesmo uma única bolacha.

Ao perder seu iPhone em uma visita a Nova York no mês passado, ele teve de pedir aos amigos, exasperados, que fotografassem sua comida e enviassem as fotos por e-mail, para evitar qualquer lacuna em seus registros. "Foi um pesadelo", disse Garcia, especialmente porque as fotos fora de foco "não têm a qualidade a que me acostumei".

Em 1825, o filósofo e gourmand francês Jean Anthelme Brillat-Savarin escreveu: "Diga-me o que comes e eu te direi quem és". Hoje, as pessoas mostram ao mundo aquilo que comem ao fotografar cada refeição, e se revelam de maneira mais vívida do que se simplesmente exibissem uma lista de aperitivos e entradas.

Manter um diário gastronômico em forma de fotos vem se tornando mania, e toda espécie de comida vem tendo suas imagens capturadas e oferecidas para consumo público. O número de fotos que levam o rótulo "food" (comida) no Flickr, um serviço online de fotografia, decuplicou nos últimos dois anos e chegou a seis milhões, de acordo com Tara Kirchner, a diretora de marketing do Flickr.

Um dos maiores e mais ativos grupos do Flickr se chama "comi isso", e inclui mais de 300 mil fotos oferecidas por mais de 19 mil membros. O número poderia ser maior, mas os membros estão limitados a 50 fotos mensais. O mesmo fenômeno existe em outros sites, tais como Twitter, MySpace, Facebook, Foodspotting, Shutterfly, Chowhound e FoodCandy.

Nora Sherman, 28, diretora assistente do laboratório de desempenho na construção da Universidade Municipal de Nova York, descobriu que as fotos de comida que tira são seus posts mais populares no Facebook, Twitter e em seu blog, Thought for Food (noraleah.com). Os comentários imediatos e entusiásticos sobre, digamos, uma salada de rúcula acompanhada por pão sírio ou quiabo frito permitiram que ela criasse um senso de conexão e comunidade, depois de se mudar de Nova Orleans para Manhattan em 2006.

"Pessoas que eu nunca vi leem o meu blog e me conhecem por meio da comida que escolho", disse Sherman. Ela foi apresentada ao seu namorado por uma pessoa que veio a conhecer em comentários sobre suas fotos de comida, e que imaginava que os dois combinariam bem.

Sherman conta que tira fotos de cerca de metade de suas refeições, mas que não retrata cada prato de jantares ou almoços com múltiplos pratos porque isso poderia "interromper o fluxo". No entanto, ela percebeu recentemente que está se tornando mais difícil conter o ímpeto de fotografar. "Tenho aquela sensação de que preciso fotografar antes de comer, e o pior é que detesto fotos ruins, e por isso preciso capturar o prato sob a luz certa e com o ângulo certo", diz.

Ela usa uma Canon PowerShot S90 e sobe fotos para seu site todos os dias, às vezes mais de uma vez por dia, o que requer cerca de 30 minutos diários de dedicação. A câmera é pequena, diz Sherman, mas funciona bem com pouca luz. Ela não produz suas fotos, e diz que "gosto de tirar fotos que um profissional jamais tiraria - segurando uma ostra a caminho da boca, ou mostrando um bagel com um pedaço já mordido".

O impulso de fotografar a comida, e fazê-lo artisticamente, estimulou seu senso de aventura gastronômico. "Isso me levou a procurar comidas interessantes e fotogênicas", diz. Ela passou a arriscar pratos que antes não experimentaria, e as fotos da comida a ajudam a manter a honestidade quando está de dieta.

As fotos também são uma forma de motivação para Garcia, que começou a fotografar sua comida depois de emagrecer 35 quilos. "É definitivamente parte da minha neurose quanto a manter a forma", ele diz. "Isso ajuda a manter a responsabilidade, porque você não quer ver que comeu um vidro todo de manteiga de amendoim". E, em expressão de seu espírito científico, ele espera um dia usar as fotos para calcular quanto dinheiro ele gasta para consumir uma caloria comparado a quanto ele gasta em academias e equipamento esportivo para queimá-la. "As pessoas que eu namoro não gostam muito do passatempo", ele diz. "Mas nunca causou problemas sérios".

Pamela Hollinger, 36, programadora e apresentadora de rádio em Stephenville, Texas, é casada há oito anos e diz que o marido se resignou a vê-la fotografar a comida. "Quando estávamos namorando, ele sempre me questionava a respeito", diz. "Agora que estamos casados, é uma excentricidade que ele aceita".

O hábito surgiu em 1997, como forma de mostrar à mãe o que ela comia nas férias, mas agora ela fotografa quase tudo que come, excluindo apenas petiscos insignificantes ou pratos visualmente sem graça como mingaus de aveia. "Acho que comprar um iPhone influenciou", diz Hollinger. "Facilita tirar uma foto do que eu estou comendo sem que ninguém perceba". Ou talvez as pessoas achem que ela está trocando mensagens de texto durante as refeições.

Ela transmite as fotos por e-mail a alguns amigos, diretamente do celular, e posta algumas delas em seu perfil no Facebook e no Chowhound. "Gosto de mostrar o que estou comendo ou algo que fiz e me dá orgulho, como costeletas de porco assadas depois transformadas em sanduíches e recheio para tacos", ela diz. "Minhas fotos de comida atraem mais comentários que qualquer outra coisa. Segundos depois de postar já há pessoas comentando que estão com inveja ou se convidando para jantar".

Que algumas pessoas mantenham diários fotográficos de comida e os postem online não surpreende os psicoterapeutas. "No inconsciente, comida equivale a amor, porque a comida é o nosso elo inicial e mais profundo com a pessoa que cuida de nós", disse Kathryn Zerbe, a psiquiatra especializada em distúrbios alimentares na Universidade de Saúde e Ciência do Oregon, em Portland. "Assim, faz sentido que as pessoas desejem capturar, coligir, catalogar, exibir e se vangloriar de sua comida".

Mas fotografar a comida pode se tornar patológico, caso interfira com a carreira ou relacionamentos, ou haja ansiedade associada à atividade. "Eu pergunto às pessoas se não fotografar a comida seria um problema para elas", diz Tracy Foose, psiquiatra da Universidade da Califórnia em San Francisco e especialista em pacientes com distúrbios alimentares. "Elas são capazes de resistir ao impulso de fotografar?"

1 comentários:

Herval Candido disse...

Para quem quer fazer dieta parece ser um bom método. Olha a foto e se sacia.